segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

MARCAS página 81

Meu caderno de viagem

Vou logo ali para Paraty
Poucos dias
Que podem mudar os rumos e as bagagens que levo no peito.
Vou ali para buscar mais ar puro
Leveza e pureza de coração
Para rever antigos amigos que não conheço ainda.
Mas sei que quando nos sentarmos para conversar
À beira mar,
Assim será. 

MARCAS página 80

Hoje ouvi meu pai
Mais uma vez contando piadas e histórias de mortos da família.
E mais uma vez

Foi bom.

MARCAS página 79

A partir de 1,99

Vende-se de um tudo.
Copos de plástico, talheres de vidro, caixas de música e maquiagem inatural.
Mil utilidades inúteis.
Eu dou de graça e entrego em casa:
1.     Um gato com caixinha de transporte, vacina e castração
2.     Um rack de TV junto com ela e um videocassete
3.     Uma máquina de costura descosturada de lado
4.     Caixas de livros que não li
5.     Coisas que vivi nas agendas e que não vivi nos planos de voos que não alcei.
Mas ninguém quer.

O que fazer com as partes de minha vida que ninguém quer?

MARCAS página 78

Eu me lembro sozinha
A sabedoria que tinha
Quando amava na sua idade
Hoje apenas solidariedade na sobriedade
De achar que sei viver.


Não se esqueça.

MARCAS página 77

A gratidão vem em ondas
Como a paz de espírito
Que vem da doação de vida ofertada por um amigo.

Vida é tempo
Tempo é prioridade

Prioridade é o que vivemos.







Obrigado Mercedes




sábado, 27 de dezembro de 2014

MARCAS página 76

Não estou entendendo o que está acontecendo
Choro de dia e escrevo de madrugada
Minhas letras vazias de significado para os outros
Desfilam meus momentos em frente aos incrédulos
Quem está rasgando o quê?
Eu me rasgo ao me mostrar
E você
Rasga meu ventre
Minhas entranhas


Sem saber que estou entregando a possibilidade de deixar minha marca no mundo.

MARCAS página 75

Sinto o cheiro da fumaça delirante
Sonho com a paz no coração da humanidade
E sinto o fedor do rio que cruza a cidade
Dentro das calças
Após comer e fazer o que quero
O que me faz feliz?
Cagar todo dia e acarinhar meus gatos.

MARCAS página 74

O amor disfarçado de sexo
Pensa que pode deixar para trás
A única chance de ser feliz
Às vezes ligo
Às vezes apago
A chama que pode me manter viva
Qual é a dessa chama?
E me calo
Me ensurdeço para não ouvir a voz da consciência.

MARCAS página 73

Passei pelo inferno
E não disse alô
Vi os demônios da alma
Distendi minhas alças
Devorando um pedaço da vida

E recolho fezes dos meus gatos diariamente.

MARCAS página 72

Um buraco em meu ventre

Uma dor era entes no prazer
Uma dor foi durante ver meu eu doente
Uma dor na despedida da possibilidade de vida
Uma dor na ausência do potencial de ti dentro de mim
E outra dor na falta de mim
Na inexistência de ti

Na incontinuidade de mim.

MARCAS página 71

Sonhos de suaves noites
Viagens rumo aos desejos do passado
Experimentando inusitados e impensadas possibilidades
De pessoas e lugares
Sei onde me cabe
Mas não sei o que me cabe
Não quero ser cabide
Nem me dependurar no mundo de um Raimundo
Mas, como disse Djavan
Nem que eu bebesse o mar, encheria o que eu tenho de fundo.
E o meu mundo gira
Tão rápido quanto uma pluma que cai.

Dá tempo.

MARCAS página 70

Lá vem ela de novo
Pra me deixar fragilizada
Diminuída, humilhada.
Vem mansa e firme
Me puxa pelas vísceras

As náuseas de dor da perda do passado.

MARCAS página 69

Uma criança distribui as facas
Outra sorri do meu destino
Queria continuar menino
Que deseja apenas companhia
Que seria de nós se...

Alívio com um analgésico simples – sorriso.

MARCAS página 68

Baby Mel
doce fogo
De estripulias mil
Alegria do gatil
Você mora no meu ombro
Igual a papagaio de pirata
Falante, me diz
Ao pé do ouvido
Que a vida pode e deve ser feliz

Bebida aos goles como água de um cantil.

MARCAS página 67

Mais um motivo

Quero escrever o que ainda não sei
O que ainda não senti
O que ainda não vivi
Quero dar um pouco de mim
Do que ainda não sei que sou
E deixar marcas onde nunca fui
Nem nunca irei.

Seu leito.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

MARCAS página 66

Tento nadar contra a correnteza
Mas me afogo no meu umbigo
Expandindo a noção do chão onde piso
Pedindo ajuda para apagar as marcas da memória de mim
Mas antes disso, preciso lavar minhas janelas.
Esvaziar a piscina dos ratos do meu passado.


O rato roeu a roupa do rei do amor.

MARCAS página 65

Sapo

Tenho alguém sonhando ao meu lado.
Quase ou parece acordado.
Chega perto
Mexe um pouco
Balbucia, rouco
Me aquece neste frio que enlouquece
Qualquer um
Único e diferente
Fico tonta, inerte

Tento ouvir seus pensamentos de carinho por mim.

MARCAS página 64

Na mesa de metal
o tempo urge
a faca ruge
o medo surge.
Mas não me sinto só.
Meus gatos vieram acompanhar na insone incerteza
do que me sucederá quando sentir o cheiro da cerveja

e perder a parte mais feminina de mim.

MARCAS página 63

Experiência simples de um gatinho dormindo no ombro.
Respiro devagar para não acordá-lo com meus pensamentos.
Ele mexe e geme
vira de lado e dorme
me aquece a orelha
me afaga a alma.

Tomo chá de cidreira.
São três da manhã.
Penso na morte, na sorte, no amanhã.
Tenho vontade de voltar ao monte e ver o Sol nascer

dando vida aos que querem ou não viver 
dormindo.

MARCAS página 62

Post scriptum recorrente numa espiral ascendente

Hoje
Primeiro dia do ano
Caminho zonza com o Sol nas costas
Pés descalços.

Depois de uma noite morta
em que passei por algumas portas
reli escritos sobre a história dos encontros que não aconteceram.

Usei o sofá por alguns anos fugindo da representante do amor vivido. 
Quando voltei para a cama
de novo
fluidos corporais.

Tentaram tampar.  
Depois um bichano cobriu lágrimas com lençóis.

Esta noite chamei as merdas do passado
elas vieram.
entraram no meu caminho enquanto caminhava com o Sol nas costas
e eu lambi meu dedo nelas 
Pensei que bom! 
Vou ter dinheiro pra comprar um chuveiro
E lavar minhas lágrimas num cruzeiro!

às merdas. 
Marcas de mordidas de canídeos uivantes numa noite de Lua cicatrizam

que lua foi ontem mesmo?
sei não
só sei que sou e sempre serei alguém que nunca vai saber
quem é o dono deste brinde de ano novo que encontrei na calçada.

Caninos na praça vazia.
fazem lembrar da noite quente
da lágrima fria.
De Hesse e Huxley.

Perspectivas existem a perder de vista...
Agora 
Só sei o que sinto.
Suor e sangue nos poros.

Pontos 
infelizmente 
não são o fim,
E injustamente 
Hoje 
Primeiro dia do ano seguinte

MARCAS página 61

Marcas ad infinitum

Números não têm fim
A matemática está em tudo
Procurei imprimir a beleza dos ciclos de vida de uma árvore em papel de arroz.

A lei áurea me libertou
Mas não foi ela
Que me mostrou.

As marcas que imprimi nas minhas telas
Foram as marcas indeléveis da serra.
Da dor de ver de fora o esquartejamento de minha alma
Passos não tem fim

e são invisíveis como a matemática das marcas da natureza.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

MARCAS página 60

Tintas escuras dançantes aparecem para curar
As marcas deixadas pelos troncos que passaram por minha casa.
Quais os seres habitaram naqueles corpos cujo destino era arder em chamas.
Ou dar de comer à mãe de todos nós.

Sua passagem pela existência não deixou ouro.
E agora?
Que são?

Restos mortais que descansam no lugar do meu leito.

MARCAS página 59

À minha volta – espelho de mim

Pétalas negras caem da engrenagem num vaso vazio.
Falso sangue fresco escorre na parede
Pingos no papel
Desenho com o dedo

Troncos secos na minha sala
Homem-linha deixa vazar o ar
Dos pés à cabeça
E se sustenta em três pés.

Um casal
Madeira e metal
Acende seus laços
Fingindo ter sentimentos

Mas sexo e solidão
Juntos
São
Apenas paixão
Transformados em melancolia
Das marcas deixadas

À minha volta - espelho de mim.

MARCAS página 58

Porque mereço viver

Estou aprendendo
Tenho que melhorar
Sou capaz
Sou agradável
Às vezes sei o que estou fazendo
Estudo as possíveis consequências
Gosto da vida numa formiga
Sei que não irradio luz solar
Mas sei sorrir de alegria
De decepção
De ternura
E da minha solidão.
Dou-me a quem doce se faça
Ou me faça.
Mas termino ouvindo Bach
Às três da madrugada
Esperando a aurora.

MARCAS página 57

E se eu morrer sexta feira?
O que restará de mim?
Por quanto tempo?
Em quem?
Quem vai arrumar minhas bagunças?
Quem vai cuidar dos meus gatos?
Quem vai pentear meus cabelos?
Quem choraria por não me ver mais?
Quem vai fazer meus relatórios?

Quanto vão valer minhas telas?



MARCAS página 56

Pulsão

O pulso pula pela vida.
E enquanto há vida
Há pulso
E pulos.

Mesmo na planta.
Quando planto
e brota.

Uma semente morre.

Uma, para que o que está dentro
Pule para fora
E se transforme
Em outra borboleta.

MARCAS página 55

Fim de jogo

Ele perdeu o que não tinha
e o que queria.
Como era o dono da bola
pegou e foi embora.
E continuamos a jogar

bolinhas de papel.

MARCAS página 54

O branco

Tremo
Treinando ser alguém
em frente a outrem.

Só.

Quem sabe me mostrais
quem sou?

Vós.

E assim vejo
você em mim.


Mas deu branco.

MARCAS página 53

Ainda quando acordar


É longe hein?
Ou sou eu que fico dando voltas 
ao redor do buraco onde enterrei meu passado.

Buraco fundo onde acaba o mundo.
Mundo de misérias e miseráveis
Nomes de guerra.


Mas tenho alguém para esquentar os pés.

MARCAS página 52

Profundezas da rotina


Durmo entre pêlos.
Um animal me afaga.
Uma aparelho me dá prazer.
E vivo entre as rodas
e engrenagens
que construíram para mim.
Querem que eu me afaste,
mas continuo pagando por sua amizade.

E vejo meus sonhos como filmes franceses.



MARCAS página 51

Pelo menos

Dois sorrisos
Dois beijos
Dois gracejos
Dois abraços
Dois afagos
Dois sussurros
Dois segredos
Dois bilhetes
Dois carinhos
Dois amassos
Dois lembretes.

Ao dia.
Por amor a mim.

E a ti. 

MARCAS página 50

Hoje não tomei meus remédios

Hoje eu acordei com um beijo
Hoje eu vi o céu florir
Hoje eu comi uma fruta que gosto
Hoje eu fiz alguém sorrir
Hoje ouvi minha música preferida no rádio
Hoje falei com amigos queridos
Hoje dancei uma valsa
E acordei para um sonho
Hoje senti alívio de uma dor
Hoje pensei algo bonito
Hoje me arrumei para mim
E ouvi um elogio
Afaguei meu gato
Visitei meus pais

Amei mais.

MARCAS página 49

RAG

Pus minhas vidas em tuas mãos.

O que farás com elas?

MARCAS página 48

Retalhos de uma tela rasgada
Retalhos de uma vida largada
À margem de uma linda estrada
Sóis que sois.
São espelhos de algo que não podem me dar.
Luz nos meus olhos
e capacidade de amar.
Procuro incessantemente instrumentos que me aqueçam
o coração e o pensamento

sem o interruptor das copas e espadas.

MARCAS página 47

De que valerá?

Escrevo um diário de cinco anos desde janeiro.
Mal tenho tempo
Mal me lembro
Escrevo o que sinto pra comparar dia a dia
Longitudinal e transversalmente.
Qual objetivo das folhas rasgadas?
Dos dias perdidos?
Das datas marcadas?

Se no final restarem apenas páginas guardadas no fundo de uma gaveta.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

MARCAS página 46

Despetalando no espelho que me mostra como sou.
Não minha imagem refletida, invertida.
A voz que ouço é diferente da voz que ouvem.
O gosto do meu suor é ácido.
Ninguém nunca lambeu minhas lágrimas.
As feridas dos meus dedos, ninguém sente por mim.

E eu nunca comi minhas fezes.

MARCAS página 45

Uma paixão não resolvida
Uma competição com quem me deu os pulmões.
Hoje uso esse alento para gritar.
Solicito à terra, à água e ao ar
Que devolvam a capacidade de entregar
e exigir algo em troca,
de mesmo valor.
Como quando
de narinas coladas

te devolvo o ar que respiras.

MARCAS página 44

Escrever

Essa vontade veio
Em meio ao presente
Junto com o medo de nada deixar
que justifique tantas correrias.
Num plantão
Vejo vidas que vêm
Vejo vazios que ficam

Quem sentirá falta de algumas letras?

MARCAS página 43

Robson

Tenho um tigre que me olha com ternura.
Traz na testa tarjas magnéticas
que o distinguem de qualquer ser vivente ou pré-existente.
Dorme tranquilo o sonho dos inocentes.
Me faz companhia e me vigia em sonho.

Brinca comigo e com os pássaros que povoam a minha mente.

domingo, 21 de dezembro de 2014

MARCAS página 42

RAGNARÖK

Assim somos imperfeitos
Seres mortais
Apocalipticamente penso no futuro do mundinho
Ao redor do meu umbigo.
Um caminho sem voltas visíveis.
Rumo ao que desconheço
O fim ou o começo
Dia após dia
Era após era
Parece que evoluí
Parece que a perfeita imperfeição é possível.
E morro todos os dias.

MARCAS página 41

O rouxinol e a rosa

Corto os punhos para dar
Taças de sangue
Ao vampiro insaciável
Do roxo amor

Por mim mesmo.

sábado, 20 de dezembro de 2014

MARCAS página 40

Tiro ou não tiro

Tiro no escuro
Retiro na matriz
Coloco na testa a liberdade estampada
Com a etiqueta do preço que valho
Ou
Deixo risco de ver morrer em meu ventre
A vontade frustra da possibilidade.
Retiro a sequência do DNA eternizável que sou
encarcerando num vaso lacrado

Ele ficará à espera
Do resto de mim.

Quem irá juntá-los?

MARCAS página 39

Dia de jogo

Hoje pintei dois quadros
Esquadrinhei curvas
Dança das tintas escuras
Sofri as mordidas do amor que tenho
Me vi em vermelho e verde
E depois bebi suco de maracujá
Para ter paciência
De manter viva a esperança de te encontrar.


MARCAS página 38

O quê?


Um prego na parede me fez pensar na minha vida.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

MARCAS página 37

Oro à carne

A hora é agora
Ação e reação são leis da física
O que é perceptível aos sentidos de estar vivo.
Me trazem a clareza da certeza segura
De que estou aqui
A certeza que tenho de estar em seus braços.
E oro à carne que isto seja real.


MARCAS página 36

Dia do corpo

Dia de tomar Sol, sentir um calor de arrepiar.
Dia de ouvir as músicas preferidas até se inspirar.
Dia de respirar fundo e dizer eu te amo em voz alta.
Dia de fazer uma visita a um amigo querido e dar-lhe um abraço.
Dia de brincar com um bichano e sentir seu ronronar no peito.
Dia de olhar uma criança nos olhos e sorrir.
Dia de acender uma vela e chorar por alguém de quem sente saudades.
Dia de comer maçã e fazer amor com amor.
Tinha de ser todo dia.

Sentir-se humano vivo.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

MARCAS página 35

A cegueira

Negro
Branco
Cinza
Sonho
Morte
Prazer
Sal
Sangue
Inércia
Verdade
Poder
Dor
Saber
Amor
Somos
Loucura
Paixão

A cegueira é solidão.

MARCAS página 34

A hora não passa.
Não quero saber
Não quero sentir
Não quero ser procurada
Não quero ser vista
Não quero viver
Das dores dos outros.

Já quis
Já fiz
Já dei
Já amei.

Não posso dar
O que não tenho mais
E não quero
Ser canal
Escada
Cavalo de pau

Saber o que foi e o que será
não é mérito.
É o desprazer
de ter dever a cumprir
sem forças pra fazer.

MARCAS página 33

Quantos grãos de areia existem no planeta?
Quantas gotas de água existem no oceano?
Quantos seres vivos existem em mim?
Quantas estrelas existem no céu?

Quantas respostas existem para quantas perguntas possam ser feitas?

MARCAS página 32

A casca

Homens possuem casca.
A casca está em quem já sofreu intempéries de existir.
Somos seres que existem, portanto, possuímos casca.

A casca é necessária como escudo protetor das agressões
Conhecidas e desconhecidas

Barata cascuda
Retirar todas as capas em cebola
Descascá-las
Ardem os olhos.
Fogo nas ventas.

Ai que saco.

A casca me deixa carrancuda.
E, enquanto não sai,

não me deixa dar frutos.

MARCAS página 31

Uma pena

Sou apenas uma
Dentre muitas
Mas sou única
Sou algo que se solta
E o vento leva
Me deixo pairar
Sobre algo que apenas sinto
Algo tão tênue
Mas caio

Não fico eternamente no ar
Ao cair, posso me molhar
Me sujar
Não escolho
Ainda

Qual a diferença?

domingo, 14 de dezembro de 2014

MARCAS página 30

A dança pelas tintas ao som do que ouvi e ficou registrado como sentimento.
Tela rasgada ao cair
Fenda por onde passam gritos de socorro.
Não fui eu quem fiz.
Não fui eu quem quis.
O irrepetível gesto de rasgar a alma e dar a palma.

A cara à tapa. 

MARCAS página 29

Jornais espalhados na sala
São sinais de que foram lidos
Tintas no móvel da sala
São sinais de que a arte passou por aqui.
Gotas secas na vidraça da janela
São sinais de que tinha alguém para fechá-las
Ou que há muito
Não foram abertas


Como meus olhos para a dor que nos cerca.

MARCAS página 28

SER QUEM?

Quem nos salvará do fogo infernal de Horácio?
41 anos depois, me perco de ti
E estou mais longe de mim do que de qualquer um.
Não leio, não bebo, não ando.
Não vago pelas ruas
Nas madrugadas menos frias do que meu catre-sofá.
Que mais não faço?

Ser eu mesma.

MARCAS página 27

APRISIONADA PELO TEMPO

72 horas contínuas de sono
365 dias contínuos de pensamentos
456 meses contínuos de gestação de sonhos
Um parto
Para iniciar o registro de uma vida infinita
Mas presa no relógio do seu pulso
Tic Tac
Tico e Teco
Céu e inferno
Atrás da pedra atirada
No jogo de amarelinha


sábado, 13 de dezembro de 2014

MARCAS página 26

MARCAS

O que você fumou?
Tomou seus remédios hoje?
Só quero a arte de me trazer de volta para casa.
A ponte do presente ruim.
Meus troncos esperam por mim.
Não dá pra criar sem o tempo
que é a sustentação do momento

MARCAS página 25

PRESS, PLAY, PAUSE

Na desenvoltura do essencial perguntam:
Você lavou as mãos antes de tocar em mim?
A amargura das tardes responde:
Não sei, vou pensar...
Venha
participar dos processos
planos, metas, propostas e desperdício de tempo.
Sou desartista de mim mesma
e como a comida do calabouço
da minha alma infernal.

Hoje vou me fingir de dona de casa.

MARCAS página 24

SOLITÁRIA

De tão grande
a barriga quase explodiu
de macarrão em pedaços
se fez e desfez sozinha
Ser o que é
Parasita de quem nunca te quis
Tua felicidade prolífica
faz paralisias, dormências
convulsões, dores de estômago
vomitando sopas de palavras engolidas
emboladas na garganta.
De quem é a culpa?

Dos porcos ou do praziquantel?

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

MARCAS página 23

SEMANA

Segunda já foi
Terça voou
Quarta passou
Quinta morta
Sexta enterrada
Sábado já era
Domingo quisera
Estar entre dois braços

De mar.

MARCAS página 22

UMBIGO

Porque tudo tem girado ao redor do meu umbigo?
Olho para dentro de mim mesmo e da minha história com interesse por uma única vida.
Ao contrário das minhas ações profissionais.
Penso que me esqueço de mim quando alguém me pede atenção.
Bloqueio o mundo em minha arte – canalizo as expressões de cada impulso de pintar, escrever e me inspirar em mim mesma.
Será para resolver meus próprios conflitos?
Tratar do outro seria o mesmo que tratar de mim?
Dor dos outros
Dor de mim
Tudo é dor de dente

Um dia passa.