sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
MARCAS página 110
Solidão
Ela pega mais
nos dias de Sol
pela manhã.
Casa vazia.
Comprimidos na mão.
E a decisão de Neo.
MARCAS página 109
Está acabando
Faltam somente três páginas.
Mas como passou rápido...
O que fiz neste período?
Dentro de uma frase
as linhas me absorveram
as curvas me aborreceram
os pontos não foram finais.
Mas os espaços vazios nas entrelinhas me fizeram pensar
no que falta.
As três páginas que faltam
serão preenchidas?
Substituídas?
Alnilan, Alnitac, Belatric...
MARCAS página 108
Asfalto novo
Projetado para durar 20 anos
Desejado para trafegar sem danos
Conforto para muitos e todos os planos
Trajeto para levar a muitos destinos
De onde veio e para onde vai
o negro fio que une e leva para longe
filhos e pais de destinos.
MARCAS página 106
Faço minhas as suas palavras.
Fácil fazer assim
Difícil saber o que quer dizer
Mais difícil ainda é fazer-se entender com palavras
O que nem as palavras traduzem com clareza.
Em qualquer língua só a língua lambendo a pele
Pode traduzir um sentimento
Meu gato, meus ex cachorros
Até os peixes (que nem sei se têm língua) lambem
Mordiscam
Demonstração de carinho?
Que venham a mim as criaturas que sentem.
E inocentes que não sabem como eu
o que é o entendimento do sentimento.
MARCAS página 105
Brincando de ir embora
O ser que sai
De saudade se vai
Pela cidade de sal
Onde só
Seca sem qualquer mel
O ser que se vai
Da cidade de sal
Onde mel seca
Sem qualquer saudade.
Só.
Volta!
MARCAS página 104
Forca
Dor
Me faz abrir e fechar os olhos
Piscar
Para na luz enxergar
E na escuridão escapar
Num lugar bem fundo me esconder
Do passado e do futuro me proteger
A fuga faz do incoerente
inocente do crime que cometeu contra si mesmo?
Dependurar-se na janela
E correr risco desnecessário.
Já estamos todos mortos se não fizermos nada em vida.
MARCAS página 103
Individuanônimo
Sinto como se chovesse em meu coração
Afogando sem ar
Suspirando sem mar
Amando sem dor
Doendo sem amor
Morrendo em vida
Vivendo sem expectativa
De deixar pegadas
Sonhos
Ou Sol por onde passar.
MARCAS página 102
Consulta antecipada
E agora?
Que vou dizer?
Que vou falar?
Se você não me deixou preparar
Me arrumar
E fingir que estou feliz.
Vou-me embora
MARCAS página 101
Ontem ouvi violinos no metrô.
E tive a experiência de te ver sorrindo
por umas poucas moedas de amor.
MARCAS página 100
Escrevo páginas de minha vida
Com pena de mim
Com dores que sofri
Com perdas de ti
Com lembranças dos lares e corações partidos que vi
E assim,
Escrevendo,
Tento apagar dor da minha existência
Abrindo espaço
Afastando o mormaço
E a lassidão
Para fazer nascer novamente
Amor perdido.
Como apagar a tinta da caneta do autoflagelo?
MARCAS página 99
Embriagada
Visão turva.
Fecho os olhos.
O mundo gira.
Mas ele gira
mesmo sem que eu feche os olhos
não vejo
O que tem no seu umbigo
Só que
quando estou contigo
Nu
Assim
não vejo mais nada.
Nem futuro nem passado.
Nem o telefone que toca
MARCAS página 98
Poema do carro parado
Sinal vermelho
Sinal verde
Sinal amarelo
Apago o farol
Vermelho
Desligo
Ligo de novo o rádio
Voz do Brasil
Esqueci o CD
Pé na embreagem
Verde
Pé doendo
Desligo
Tento voltar pela contramão
Parada
Duas horas
Tanto que perdi
Por dez centavos de desconhecimento
Pensamento
Amarelo e verde
Vamos!
MARCAS página 97
Showmício
Estamos com sorte.
O caminho está livre.
Temos dinheiro no bolso.
Trabalhamos menos.
Temos tempo para nos alimentar.
Temos um amor ao lado.
e filhos que vão nos cuidar.
Temos transporte adequado.
E sentimos prazer de viver.
Temos saúde e cuidados
quando estamos amoados.
Estamos com sorte.
Os canteiros de flores estão cercados.
Acho que vai ter show hoje na praça.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
MARCAS página 96
Semáforo
sem fósforo para acender
freada brusca
sem amor para viver
arranque
do meu peito o coração
Vire à direita
direto para a escuridão
de noite
Páre
na avenida principal
numa parada de setembro
Preciso chegar
Terei de mudar o trajeto
Então me faz perder a noção
de que esquecer não é a solução para todos os meus problemas
de pressa.
sem fósforo para acender
freada brusca
sem amor para viver
arranque
do meu peito o coração
Vire à direita
direto para a escuridão
de noite
Páre
na avenida principal
numa parada de setembro
Preciso chegar
Terei de mudar o trajeto
Então me faz perder a noção
de que esquecer não é a solução para todos os meus problemas
de pressa.
MARCAS página 95
Órgão
Sinto um buraco no peito
Fiz uma cirurgia há um ano
Mas foi do lado direito
Esse outro buraco atravessa meu tronco
Atinge pulmões aorta e mediastino.
Por ele vazam jorros de minha alma
Por ele despejo meus pensamentos nestas páginas
Qual dos meus órgãos pensa que pensa?
MARCAS página 94
Dizer quem te ama
Desde já
Desde quando decidi te amar
Dizer-te que te desejo
Desde quando sonhei com um beijo
Dizer-te que sinto saudades
Desde a manhã
Desde quando sei que acordarei
Dizer-te que te esperei
Desde que nasci
Até o dia que decidi
Ouvir-te
MARCAS página 93
Longo trajeto até ti
O percurso
O tempo
O vento no rosto
A náusea e o desgosto
De sair do meu conforto
E ir ao encontro ao outro.
Que me avaliará
Que me dirá da aparência.
Da minha carência.
Satisfazer meu prazer.
Mas não saberá
Do esforço que fiz
Para sair do meu casulo e virar uma borboleta em busca de néctar
E encontrar saliva doce e suor de mar
No seu modo de calar
MARCAS página 92
Me dá um autógrafo?
Minhas folhas estão acabando.
Faltam poucas páginas à frente.
Estou olhando por um ponto de vista.
O lado visível da vida.
Ainda tem os versos!
Páginas estão em branco.
Neles não escrevi os anversos dos poemas
dos versos que não corrigi
As versões que não sobrescrevi em outros cadernos,
Mostram que tudo é possível
Desde que enxerguemos que é factível escrever
por cima dos pulos e das cercas.
MARCAS página 91
Bater o ponto
Fazer o mesmo todo dia
Sair de mim e assumir
A personalidade de persona pública
Sair de mim
Transformar-me em figura non grata
Non gata
Non ilegal
Non personal
Non friend
Non me
Quem eu perdi
Antes de bater o ponto.
Não voltarei após a aposentadoria.
MARCAS página 90
Não quero ir para casa
quero tomar um café no caminho
Sozinho
Sair sem rumo até chegar a um destino
De menino que não quer ir para casa
Fazer o quê lá?
Afagar os gatos
Bater o ponto nos pais
Ver a bagunça do quarto
Tirar a poeira dos móveis
Sabendo que
Amanhã será o mesmo
Marasmo.
MARCAS página 89
Rodando
Por aí
Que por!
Aí
Ai
Que
Ai que por...
Por
Que
Aí
Por que aí?
Aí
Ai
Que?
Rodando por aí...
Há.
MARCAS página 88
Na linha
Estou na minha linha
Aguardo o fim
Caminho passo a passo
Um dia a porta se abrirá
Que(m) será?
MARCAS página 87
Meu pai = querer bem
O que te fez meu.
És meu?
Pai de todos
O que te fez pai.
És pai?
Companheiro de vida
E o que te fez abrir mão de si.
Quem és tu?
Amigo
O que conheço de sua história e sabedoria
É que sois alegria de nunca te ver chorar
E sempre fazer sorrir quem te rodeia
Não bater
Oferecer a face a quem amas
A pensar no passado e no futuro com a mesma prudência e sapiência
A não maldizer e não malquerer
A enaltecer a grandeza da natureza dentro e fora de cada um.
Com você aprendi
Que em tudo e em todos existe o belo e há o que aprender.
Que a dor e a tristeza não são fruto do acaso
Mas do que fizemos ou deixamos de fazer
Aprendi que a vida é para ser polida e que até uma estrela morre.
Então, tudo pode ser eterno
Enquanto moldável.
MARCAS página 86
Máxima
Arte para o artista não é hobby
É o sangue em suas artérias
É o ar que respira
É a necessidade em suas entranhas
É o resultado, é produto de sua alma e esforço e coragem de sua
palma.
A arte para o artista não é hobby
É o que se passa no âmago do seu Ser
E extrato de seu existir.
MARCAS página 85
Para ti
Que me fazes sentir
Como adolescente palpitante
Com o esforço de conter
Os instintos de liberdade
E fluidez para preencher
Espaços de vazios entre desconhecidos.
MARCAS página 84
A dos olhos azuis
Bela coincidência sobre a pedra
Reencontro de olhares
Impossíveis pela distância
De viver rotinas rôtas
E pelas âncoras de passados mortos.
Desenho curitibano que me fez
Sentir insana
No auge do que se pode chamar
Acorrentar-se.
MARCAS página 83
Quem hoje lavra sua terra e faz sua comida?
Canta no chuveiro e cultiva seu jardim?
Ouve suas músicas prediletas sem hora para acabar?
Visita seus pais todos os dias
Quem faz poesia com a fala de um desconhecido ao lado
Ouve e conta piadas
E ainda assim
MARCAS página 82
Quero deixar marcas em telas
Em peles, papéis
Em vidas
Em meu corpo
Em meu e seu coração
Não para que sejamos donos uns dos outros
Mas sim de nós mesmos.
Que essas marcas nos façam recordar
Quem somos
E os pedaços de vida que demos
E recebemos
Anexando à nossa.
Assim somos um.



